terça-feira, 8 de março de 2011

Companhia

Ela estava sentada em frente a sua velha escrivaninha de madeira, vigiada por um espelho que cobria a parede. O pequeno caderno de capa azul celeste que servia como diário pra moça de cabelos cor de fogo estava aberto sobre o móvel delicado numa página em branco. Mentira! A página estava parcialmente em branco pois havia algumas frases riscadas de textos que começara a escrever, mas não teve como continuar; não faltou imaginação, não lhe faltou sensibilidade e, sim na verdade, lhe faltou sentimentos pra expressar.
O lápis em sua mão tinha uma das extremidades úmida pois não saía de sua boca, a ansiedade por querer escrever e não ter sobre o que fazer a pertubava, afinal sua mente sempre esteve aberta, aberta o suficiente pra nunca lhe faltar conteúdo, nunca lhe faltar palavras.
A ponta do lápis quicava ao lado do caderno destruindo o silêncio do local. Sua inquietação e sua dificuldade de se concentrar seria fácilmente notada caso ela não estivesse sozinha. 
Então, ela bate suas pestanas e seus longos cílios abrem passagem para a gotícula retida no canto de seu olho esquerdo transbordar e escorrer lentamente pelo seu rosto de linhas fortes. A menina fita o espelho a tempo de observar a lágrima cortar sua face. Afinal era isso, ela estava sozinha. 

sábado, 5 de março de 2011

Imaginário.

Sopros em meus ouvidos, palavras jogadas por alguém que não deseja meu bem, não mesmo. 
Relembrando um passado que no momento - o presente, me parece tão mais atraente, tão mais prazeroso de se viver. Vagamente lembro-me de todas as lágrimas, só que vista de hoje elas parecem tão pequenas, tao sem importância e os sorrisos são tão escancarados, eu era feliz? Eu era! 
Por que nas lembranças eu sempre estou sorrindo? Nesse globo transparente que me permite enxergar, vejo a fita que estava tapando meus olhos, ela estava lá antes? Não me recordo. Lembro-me de ter chegado agora e as máscaras terem caído e a verdadeira personalidade das pessoas terem sido reveladas. Eu era feliz, eu era cega, eu era iludida, mas em meu peito não havia nenhum vácuo. 
Quando eu voava meus olhos brilhavam, e agora que eu me encontro na terra o que eu tenho? Me diz você que vive com os pés no chão, vale a pena viver na realidade?

terça-feira, 1 de março de 2011

(In)felicidade oculta

Pouso minha mão sobre minha face e lentamente desloco meu rosto, observo ele caindo sobre minha palma. Com delicadeza viro o que está sobre minha mão para que eu pudesse observar minha imagem. Há um sorriso nela, aberto e escancarado. Um sorriso que não tinha motivos de estar ali. Nos olhos dois buracos, duas órbitas vazias que não combinavam com a expressão feliz do resto do rosto, estavam em branco sem demonstrar nada. Por um momento passa na minha mente a imagem de um palhaço, aquele sorriso desenhado escondendo toda tristeza, amargura, raiva ou qualquer sentimento ruim que fosse que estivesse atrás de sua pintura, uma nojenta falsidade. E a máscara estava da mesma forma rindo congelada. Tudo que eu mais abominava estava ali agora, nas minhas mãos, mesmo que fosse de uma maneira diferente no fim representava a mesma coisa. Eu era igual a todos eles, era igual aos palhaços que sorriam mesmo quando seus olhos estavam cheios de lágrimas, ou mesmo quando seus corações não aguentavam mais de ódio. Era igual a todas as pessoas que fingiam ser o que não eram. Eu era hipócrita... Em um descuido a máscara escorrega por entre meus dedos e cai no chão. Os cacos, os estilhaços de minha face espalhados pelo carpete daquele cômodo vazio e escuro, apenas uma fresta de luz entrava pela pequena abertura da porta. O terror de ser comparada com aquilo que me causava náuseas passava pela minha mente, me assombrava. Levei minhas mãos ao rosto buscando alguma explicação, e eu senti o umidecer das lágrimas encharcando-o, a hipocrisia descia como veneno pelos meus olhos. Sentei-me ali junto com os pedaços de minha felicidade -uma falsa felicidade, largada em um canto qualquer, envolvi meus joelhos com meus braços e deixei que meu choro lavasse a minha alma.