terça-feira, 10 de maio de 2011

Plano falho.

Enquanto você falava eu observava o movimento de seus lábios finos, porém rosados. Eles se mexiam lentamente e as suas palavras eram firmes e precisas como sempre. Um texto que parecia decorado, estudado já que todos os meus argumentos e dúvidas tinham respostas imediatas. Mas eu já conhecia de cor todos os seus dircursos de perdão e arrependimento.
Esqueci do som de sua voz e meus olhos buscaram os seus, eles fuzilavam meu rosto numa tentativa de me convencer da emoção de sua história recitada. Eu não senti a queimação das maçãs do meu rosto ficando avermelhadas com a emoção de estarmos assim tão próximos; minhas bochechas não coraram. Meu coração não bateu mais forte, a felicidade não me invadiu, nem a esperança de que dessa vez daria certo ressurgiu no fundo de mim. 
Você estava de volta mais uma vez. Eu poderia repetir suas palavras junto a ti, pois elas eram as mesmas de outros tempos. Só que dessa vez era diferente: eu não queria ouvi-las.

sábado, 2 de abril de 2011

Eu amo você.

Suas passadas já não estam firmes, e seus olhos enxergam através de uma neblina densa que sua mente se encarregou de formar. Tem dificuldade de mantê-los abertos. Sua respiração pesada já não supri sua necessidade de ar. Seus pulmões são esmagados pelas estocadas fortes que são dadas em seu peito, ele apanha, mas a dor física não vem talvez por já não ter espaço pra ela. Culpado,"órgão maldito".
Caído no chão se encontra o homem sorrindo, entre seus dedos a seda enrolada, a fuga mais fácil para seus problemas. A leva até a boca, uma prensada e o mundo se torna cor de rosa, seu amor ainda não foi embora e nele... nele não existe mais confusão.

terça-feira, 8 de março de 2011

Companhia

Ela estava sentada em frente a sua velha escrivaninha de madeira, vigiada por um espelho que cobria a parede. O pequeno caderno de capa azul celeste que servia como diário pra moça de cabelos cor de fogo estava aberto sobre o móvel delicado numa página em branco. Mentira! A página estava parcialmente em branco pois havia algumas frases riscadas de textos que começara a escrever, mas não teve como continuar; não faltou imaginação, não lhe faltou sensibilidade e, sim na verdade, lhe faltou sentimentos pra expressar.
O lápis em sua mão tinha uma das extremidades úmida pois não saía de sua boca, a ansiedade por querer escrever e não ter sobre o que fazer a pertubava, afinal sua mente sempre esteve aberta, aberta o suficiente pra nunca lhe faltar conteúdo, nunca lhe faltar palavras.
A ponta do lápis quicava ao lado do caderno destruindo o silêncio do local. Sua inquietação e sua dificuldade de se concentrar seria fácilmente notada caso ela não estivesse sozinha. 
Então, ela bate suas pestanas e seus longos cílios abrem passagem para a gotícula retida no canto de seu olho esquerdo transbordar e escorrer lentamente pelo seu rosto de linhas fortes. A menina fita o espelho a tempo de observar a lágrima cortar sua face. Afinal era isso, ela estava sozinha. 

sábado, 5 de março de 2011

Imaginário.

Sopros em meus ouvidos, palavras jogadas por alguém que não deseja meu bem, não mesmo. 
Relembrando um passado que no momento - o presente, me parece tão mais atraente, tão mais prazeroso de se viver. Vagamente lembro-me de todas as lágrimas, só que vista de hoje elas parecem tão pequenas, tao sem importância e os sorrisos são tão escancarados, eu era feliz? Eu era! 
Por que nas lembranças eu sempre estou sorrindo? Nesse globo transparente que me permite enxergar, vejo a fita que estava tapando meus olhos, ela estava lá antes? Não me recordo. Lembro-me de ter chegado agora e as máscaras terem caído e a verdadeira personalidade das pessoas terem sido reveladas. Eu era feliz, eu era cega, eu era iludida, mas em meu peito não havia nenhum vácuo. 
Quando eu voava meus olhos brilhavam, e agora que eu me encontro na terra o que eu tenho? Me diz você que vive com os pés no chão, vale a pena viver na realidade?

terça-feira, 1 de março de 2011

(In)felicidade oculta

Pouso minha mão sobre minha face e lentamente desloco meu rosto, observo ele caindo sobre minha palma. Com delicadeza viro o que está sobre minha mão para que eu pudesse observar minha imagem. Há um sorriso nela, aberto e escancarado. Um sorriso que não tinha motivos de estar ali. Nos olhos dois buracos, duas órbitas vazias que não combinavam com a expressão feliz do resto do rosto, estavam em branco sem demonstrar nada. Por um momento passa na minha mente a imagem de um palhaço, aquele sorriso desenhado escondendo toda tristeza, amargura, raiva ou qualquer sentimento ruim que fosse que estivesse atrás de sua pintura, uma nojenta falsidade. E a máscara estava da mesma forma rindo congelada. Tudo que eu mais abominava estava ali agora, nas minhas mãos, mesmo que fosse de uma maneira diferente no fim representava a mesma coisa. Eu era igual a todos eles, era igual aos palhaços que sorriam mesmo quando seus olhos estavam cheios de lágrimas, ou mesmo quando seus corações não aguentavam mais de ódio. Era igual a todas as pessoas que fingiam ser o que não eram. Eu era hipócrita... Em um descuido a máscara escorrega por entre meus dedos e cai no chão. Os cacos, os estilhaços de minha face espalhados pelo carpete daquele cômodo vazio e escuro, apenas uma fresta de luz entrava pela pequena abertura da porta. O terror de ser comparada com aquilo que me causava náuseas passava pela minha mente, me assombrava. Levei minhas mãos ao rosto buscando alguma explicação, e eu senti o umidecer das lágrimas encharcando-o, a hipocrisia descia como veneno pelos meus olhos. Sentei-me ali junto com os pedaços de minha felicidade -uma falsa felicidade, largada em um canto qualquer, envolvi meus joelhos com meus braços e deixei que meu choro lavasse a minha alma. 

sábado, 29 de janeiro de 2011

Oferta.

Saiba que eu vejo além disso, além de seus piercings e suas tatuagens que te deixam com uma aparência tão hostil. Sim, eu gosto. Gosto dessa brutalidade, esse monte de metal e esses desenhos servem como uma armadura, mas eu vejo, eu vejo além disso. Você está rindo, por quê? Por que eu também tenho essas coisas? É verdade, eu tenho. Mas eu sou diferente, sou sim! Os demônios que tantam te assombram, eu, eu aprendi a viver com eles, eu aprendi a dominá-los. Claro, eu paguei um preço, mas será que não valeu a pena? Eu sou forte, esses olhos... você gosta deles? São angelicais, não são? São, mas esses olhos não sabem o que são lágrimas. Você chora, rapaz? Eu sei que sim, eu vejo além disso. Mas eu não, eu deveria chorar, o normal das moças é chorar, e muito, mas eu não. Eu sou dura, dura feito pedra, esse seu coração, óh o que é isso? Ele está sangrando? Você quer curar essas feridas, meu jovem? Eu posso te curar, eu posso te ensinar a ser como eu, mas tudo tem um preço, ah não fique com medo, não sou nenhum diabo, não quero tua alma. Eu só quero abrir sua mente. Já fui assim como você, sabia? Eu já chorei, já sofri, já quis morrer. Alguém machucou meu coração, não era alguém qualquer, porque na verdade nunca fui tão sensível. Talvez seja isso, eu nunca fui normal. Ou era? Porque sinceramente nunca acreditei muito nisso, garoto, nesse lance de amor e felicidade, nunca acreditei em ninguém. Aliás, não acreditava nos sentimentos, mas sim nas pessoas. Por isso alguém qualquer não me ganharia, porque eu me encantava fácil pelas pessoas, é verdade, mas pra transformar esse encantamento em algo mais era difícil, quer dizer, essa foi a única vez que aconteceu, você me entende? Eu era ingênua, sim e muito. Só que então eu senti isso, eu amei, eu chorei, eu escrevi coisas belas, eu me entreguei, eu me destrui. Porque no final é isso que aconteceu, eu mesmo me destrui porque fui eu que acreditei em todas as palavras doces, em todas as ilusões, é. Sabe, menino, é assim que as coisas são, nós somos os verdadeiros responsáveis por tudo que nos acontece. Se sofremos, é porque buscamos o nosso sofrimento. Não me olhe assim, deixa eu abrir sua mente, não se feche dentro desse peito, desse amor, ele machucou seu coração, e o que eu fiz a você? Só quero ajudar, você ainda escolhe o amor? Me escolha, rapaz. 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Caso.

Temo ser só novamente. Escondo meus medos, minhas loucuras e pensamentos, o que sinto e o que quero em um local que até mesmo eu esqueci. Mas será que eu já não estou sozinha? Sinto todos os toques, escuto todas as palavras, porém elas voltam vazias, já não sinto o aconchego de seus abraços, nem vejo meu reflexo dentro de seus olhos. Talvez nossa chama fora finita, talvez ela já tenha se apagado, ou nem tenha existido.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Refúgio.

Eu ainda não havia visto seu sorriso, porém eu já o sentia.
Suas palavras davam gargalhadas que me dominavam por inteiro, eu estava presa a tudo que você tinha a me dizer, mas eu não sabia que era tanto. Eu queria, as palavras tem força, não?
Gritava que parasse, mas já se tornara um vício, eu tinha sede, eu tinha sede de você.
Buscava sedenta aquele que me satisfaria, eu tinha tanto amor pra dar, tanta atenção, afeto, carinho. Mas cadê você pra despertar todos esses sentidos adormecidos, endurecidos, escondidos, trancados, dentro do meu lugar seguro? Dentro do meu quarto escuro. Eu me tranquei dentro de mim mesma, guardei tudo que sentia, palavras, meras palavras, incríveis palavras era a minha forma de fugir, eu buscava compreenssão. Fugir de tudo, toda dor, todo incomodo, vazio. Gritos e mais gritos, meus demônios, meus perversos e lindos demônios.
Entretanto eu te vejo e todos os meus instintos de amar são acordados. Meus olhos são ofuscados pelo brilho do seu sorriso, o mais lindo sorriso. E eu me sinto segura, protegida em seus braços.